Isabelle Costa Mesquita*
Falar sobre o meu pai me emociona. Penso
nele agora e posso vê-lo sentado em sua confortável poltrona assistindo
a filmes fordianos, chaplianos e capprianos enquanto a tarde cai, se
emocionando em cada cena.
Sim, definitivamente meu pai é um homem de emoções fortes. Intenso. Profundo. Do tipo que implode ou explode, e que por mais que tente ocultar, sempre deixa transparecer o que há em seu coração. Sua franqueza é percebida nos seus enigmáticos olhos. Olhos escorpianos de um autêntico detetive emocional, capaz de desvendar o que está oculto nas palavras, gestos e intenções.
Sim, definitivamente meu pai é um homem de emoções fortes. Intenso. Profundo. Do tipo que implode ou explode, e que por mais que tente ocultar, sempre deixa transparecer o que há em seu coração. Sua franqueza é percebida nos seus enigmáticos olhos. Olhos escorpianos de um autêntico detetive emocional, capaz de desvendar o que está oculto nas palavras, gestos e intenções.
Como todo ser humano, tem suas manias e idiossincrasias: é diurno,
metódico, organizado, tem o curioso hábito de “agendar” diariamente suas
tarefas em simples folhas de borrão e carrega consigo traços de uma
leve hipocondria, certamente herdada de sua mãe, minha saudosa vó Nair.
Ah, e é leitor voraz até de bula de remédio, sabendo os prós e contras
de qualquer medicamento. Meu pai tem em sua “pasta” sempre um remedinho
básico para qualquer indisposição.
Meu pai também é um homem de gostos simples. Aprecia uma boa comida
caseira, não recusa a indefectível parceria pão francês e café com
leite, gosta bater prosa com os amigos e de contar seus “causos” de
forma divertida, apesar de sua aparente formalidade – preferências
típicas de quem nasceu e viveu no interior, cultuando tais hábitos até
hoje. É amigo de gente pobre e de gente rica; de gente culta e inculta,
enfim, um democrata social, estendendo a todos igual atenção e apreço.
Guardo em minha memória, deliciosas lembranças da minha infância com o
meu pai. Lembro de dançar agarrada à sua cintura com os meus pés sobre
os dele, de ouvi-lo contar histórias ao pé da minha cama e de ele sempre
me trazer gibis e figurinhas ao chegar do trabalho, os quais eu
esperava com ansiedade. Meu pai nunca me ensinou acrobacias e nunca me
estimulou a fazer esportes mais “radicais”, talvez porque ele mesmo
tivesse receio dessas coisas, talvez porque, quando um filho é único
você redobra os cuidados. Em contrapartida, meu apresentou ao gosto pela
leitura, o que me rendou boas notas em redação e interesse por tudo que
envolvesse cultura.
Apesar de sua vida política ter nos privado de muitos momentos juntos,
posso dizer que dos momentos que desfrutamos, a qualidade se sobressaiu.
Digo sempre que papai tornou-se político, mas nasceu escritor. Um
genuíno e atento observador da cena urbana, usando seus escritos como
forma de “desabafo” frente às injustiças do mundo, defendendo com
veemência o que acredita ser correto e justo, por mais que decrete a sua
desesperança ao ver o noticiário de TV. Daí, ele me ensinou uma
importante lição, ao repetir sempre: “[…] filha, não devemos nunca
perder a capacidade de nos indignar […]”.
Sua maior virtude? O seu desprendimento franciscano e a sua capacidade
de perdoar até os imperdoáveis. Sem dúvida, meu pai é um homem generoso.
Generosidade que acolhe órfãos, cachorros de rua, dos dinheiros que
empresta e dos pagamentos que se recusa receber.
Sou filha do meu pai com muito orgulho e agradeço a Deus por essa oportunidade nesta vida.
Meu pai é meu norte, meu porto seguro, e
minha mais perfeita referência do que é digno, humano e verdadeiro. Ao
senhor, meu pai, a minha eterna gratidão por tudo que sou e obrigada por
você fazer parte da minha vida!
(*) Advogada.

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